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Sexta-feira, Abril 23, 2004
Chovia demasiadamente. Olhou o relógio. Já passava das duas horas da manhã. Sentiu um súbito calafrio. Estava lá, dentro do seu carro, no meio da avenida, sem ninguém por perto, sem luz alguma e o pior: sem um pingo de gasolina. Culpou-se por não ter enchido o tanque naquele dia. " Mas fazer o quê se os postos colocam o preço do combustível nas alturas?" - pensou consigo mesmo, tentando de alguma maneira se reconfortar. Mas não adiantava. A realidade era que corria um risco tremendo e não via saída. Estava realmente perdido. Olhou para os lados tentando achar uma solução. Lembrou-se do celular. Procurou-o por todo o carro mas não encontrou. Havia esquecido. Sentiu raiva. Voltou no tempo. Há quatro horas estava em casa, no seu quarto, quando o telefone tocou:
- Márcio amigão, aqui é o Douglas. Tenho um programa pra gente hoje. Vamos cair na balada. Vem me pegar aqui em casa agora que a noite é nossa. Estou esperando viu? Tchau .....
Não teve tempo nem pra dizer que não estava com vontade de sair. Ponderou porém: o Douglas já tinha quebrado vários galhos pra ele. Não custava acompanha-lo em sua empreitada noturna. Trocou-se, entrou no carro, verificou o marcador de gasolina. Devia ter uns quatro litros, no máximo. Fez uns cálculos rápidos e concluiu que daria para rodar uns quarenta quilômetros. Pegou Doug então, que por sinal estava animadíssimo. Sugeriu várias opções de boates, bares, botecos e companhia. Decidiram conhecer a nova boate da cidade, muito bem comentada nos jornais.
Não se decepcionou com a casa, muita gente, ambiente agradável, ótimos preços. Só não esperava que Doug fosse exagerar no álcool. Mas ele exagerou. Quase que desmaiado, teve que carrega-lo por toda boate, aos olhares de desprezo e repulsa dos freqüentadores. Colocou-o no carro. Quando pensou que mais nada de errado poderia acontecer, o céu desabou. Uma chuva tão forte como nunca tinha visto na vida. Seguiu para casa de Doug, deixou-o deitado no sofá. Voltou pra casa mas, no caminho, o carro insistiu em parar. Olhou para o painel. Já havia rodado mais de cinqüenta quilômetros. Seus cálculos falharam. Nada podia fazer naquele momento.
Voltou à realidade. Agora sentia medo. Movimentos estranhos na avenida não são comuns às duas da manhã. Tentou se acalmar. Decidiu esperar ajuda. Assim, ficou no carro até às cinco da manhã quando um motorista, enfim, resolveu compartilhar um pouco do seu combustível. Agradeceu muito, voltou pra casa, dormiu. Queria que aquilo tudo tivesse sido apenas um pesadelo.
escrito por felipe bravo | Comentários: |
3:14 PM
Domingo, Abril 11, 2004
Aqui vai mais um conto. Esse texto eu escrevi há algum tempo.
[Retrato Brasileiro]
O policial atirou em sua direção. Lembrou da infância muito pobre. Seu pai, ladrão e sua mãe, prostituta. Claro que o genitor nunca o reconheceu como filho legítimo. Morreu por aí, nas cadeias da cidade. Sua mãe, coitada. Sem dinheiro para sustentar os quatro filhos teve que entregá-los a qualquer orfanato da vida. Morreu de aids anos depois. Cresceu com raiva. Raiva de saber que não teria futuro. Seus irmãos, nunca mais os viu, depois que saiu do orfanato aos 18 anos. Entrara para o mundo do crime naquele exato momento. Pés na rua, muita fome, dinheiro algum. Questão de sobrevivência.
O projétil voava de encontro a sua cabeça. Lembrava agora de sua nega. Ah, como era bonita. Encontrou-a por aí, nas esquinas do crime. Amor à primeira vista. Levou-a para morar no seu barraco. Já tinha 27 anos e era respeitado. Vários assaltos a bancos e a hipermercados, todos bem sucedidos. Vivia cada momento como se fosse o último. E certamente podia ser. Cego de amor, planejou por meses o assalto a tal joalheria. Queria presentear a nega, grávida de cinco meses.
Já não havia mais como escapar. Alguma coisa deu errada naquele sábado. Saiu cedo como planejado. Arrombou um carro, seguiu o trajeto estudado. Entrou na loja de jóias. Anunciou o assalto. Tudo nos conformes. Colocou o maior número de diamantes possíveis na sacola. Encheu os bolsos de ouro e prata. Virou-se para fugir. Esqueceu, porém, o maldito PM. Reagiu tarde demais.
O sangue jorrava pelo buraco aberto na cabeça. Nos últimos rasgos de consciência lembrou da vida que não teve. Recordou das passagens (rápidas) pela detenção. Pensou na nega, nunca mais a veria e nem teve tempo de despedir-se. Imaginou então o rosto do futuro primogênito. Era bem verdade, todos diziam: o crime não compensa, principalmente para os pobres. Morreu finalmente. Despediu-se da vida assim como entrou nela: pela porta dos fundos.
escrito por felipe bravo | Comentários: |
4:44 PM
Sábado, Abril 10, 2004
Conto: Jogo da vida
Era bem verdade que ele nunca fora chegado a um jogo. Muito pelo contrário, detestava apostar ou qualquer coisa do gênero. Porém era quase impossível resistir àquela tentação: Compre uma raspadinha e ganhe mil reais. Pagamos na hora - dizia o cartaz estendido na frente de uma casa de apostas. Tinha um real no bolso, o preço da raspadinha. Pensou em voltar a pé para casa depois de um dia exaustivo à procura de emprego. Quase desistiu mas alguma coisa o dizia para arriscar.
Entrou na casa de apostas, tomou coragem, encarou o balconista. Puxou rapidamente o dinheiro do bolso antes que pudesse pensar em desistir. Beijou a cédula, a derradeira cédula. Comprou enfim a raspadinha. Começou a sentir-se culpado. Sua família sem nada para comer e ele gastado um real, seu precioso um real em uma talvez inútil raspadinha. Parou de pensar por um instante. Raspou enfim.
Ficou atônito. Esfregou os olhos. Só poderia ser ilusão de óptica. Conferiu de novo. Estava lá, três símbolos iguais.Ganhara os mil reais. Voltou ao balcão, entregou a raspadinha ao balconista. Observou o semblante do mesmo por alguns segundos. Conferiu um sorriso aguado do rapaz. Então ele confirmou: a raspadinha era mesmo premiada. O balconista prontamente fez uma ligação. Cinco minutos depois chegou um senhor bem vestido - provavelmente o dono do estabelecimento. Entregou-lhe uma maleta. Pediu para conferir o dinheiro. Estava tão eufórico que colocou-a embaixo do braço e saiu caminhando pela rua .
Começou então a pensar quantas coisas faria com aquele dinheiro todo. Arrumaria um novo barraco para a família, seus filhos teriam pela primeira vez na vida uma mesa farta. Poderiam afinal fazer três refeições diárias. Olhou para o lado. Observou um velho, provavelmente muito doente, com a mão estendida. Não pensou duas vezes, abriu a maleta, tirou dez reais. Deu-lhe a nota. O velho não cabia em si de alegria.
Continuou a andar. Avistou a parada de ônibus. Agora podia pagar a passagem. Estendeu o braço. Entrou no ônibus, pagou sua passagem orgulhoso. Sentou-se. Sonhava. Acordou com gritos. Assalto. Os bandidos agiram rápido. Puxaram-lhe a maleta. Não reagiu. Viu seus sonhos correndo junto aos marginais.
Desceu do ônibus. Pensava bastante. Como encararia os filhos, a mulher? Resolveu que não comentaria o ocorrido. Sentia-se frustrado. Subitamente, porém, alegrou-se. Lembrou do velho que ajudara minutos atrás. Sabia que pelo menos ele teria o que comer naquela noite.
escrito por felipe bravo | Comentários: |
11:50 PM
Começou !!!! Aqui está, finalmente o meu blog pessoal. Vocês verão por aqui minhas idéias, meu ponto de vista sobre os mais variados assuntos, alguns contos (quando me atrevo a escrever), entre outras coisas. Espero que gostem, abraços !!!
escrito por felipe bravo | Comentários: |
11:39 PM
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